A primeira empresa brasileira de tecnologia mundial?

Uma pergunta que pode ser facilmente respondida: não temos, ainda.

O período que engloba os anos 2005 e 2012 o Brasil recebeu uma verdadeira explosão de investimentos estrangeiros no país. A economia favoreceu, a moeda estabilizou e o mais importante: a internet democratizou processos para se tornar um empreendedor. Com poucos recursos hoje é possível colocar uma ideia para funcionar em poucos dias. O movimento pós bolha, período de quebra da internet que “levou para o vinagre” empresas como Pets.com, Boo-com e Webvan.com em meses, trouxe maturidade para internet. Estamos falando de um passado recente, mais precisamente o ano de 2000. E as coisas são tão dinâmicas que é quase impossível lembrar o que essas empresas faziam.

No Brasil, os pioneiros Mandic (que viria a criar o IG com Alexsandar Mandic, o fundador), AOL(vindo dos EUA), Cadê, Uol entre outros anunciavam aos brasileiros o que a internet faria com a vida das pessoas. De lá para cá, milhares de empresas nasceram na internet, a maioria morreu nela própria. Para “pincelar” o mercado brasileiro em seu trajeto até os dias de hoje citamos: O Buscapé foi vendido por R$ 342 milhões para a empresa Sul Africana Naspers, O Facebook se tornou a maior rede do mundo (tem um brasileiro como fundador), o Instagram foi vendido para o mesmo Facebook por US$1 bilhão (o co-fundador é Brasileiro) e o novos milionários são agora nerds com menos de 30. Só de ler esse parágrafo dá para ser otimista com o futuro da internet no Brasil. Vamos analisar melhor com uma visão crítica do momento atual.

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Eduardo Saverin, o maior brasileiro da Internet

As empresas acima citadas são verdadeiros exemplos que o Brasil está no mapa do empreendedorismo mundial, mas ainda não somos uma expressão real de Inovação e Tecnologia, pelo menos não como poderíamos. Não temos ainda, uma empresa de Tecnologia com escritórios abertos em diversos países, não temos também alguma com influência internacional capaz de mudar a internet. Temos alguns exemplos de empresas brasileiras indo a mercados próximos como México e América do Sul. Por quê? Já que somos um dos maiores mercados empreendedores do mundo? O lado estatístico, tem um “porém”. Segundo o IBGE, de cada 10 empresas, apenas 2 sobrevivem ao segundo ano. É um número assustador, se pensarmos que são abertas cerca de 500.000 empresas todo ano. Talvez precisamos afinar a qualidade das empresas abertas. E identificar melhor os motivos. Analisando dessa forma, podemos afirmar que todo ano:

400 mil empresas vão à falência ou encerram as atividades.

Na internet não é diferente. Recentemente assistimos de camarote a grande bolha formada pelos clubes de compra. Hoje podemos contar na mão quais sobreviveram ao massacre lógico das promoções e cupons. Logo de cabeça é fácil citar Groupon, Peixe Urbano e Clickon, que se mantiveram. O ano de 2011/2012 foi responsável pela criação alucinante desses clubes. Em 2012 esse mercado alcançou no Brasil cerca de 2.000 clubes de compra, sem contar os não catalogados. 99% delas já não existem, e os motivos são diversos. Estávamos preparados? Era um modelo ideal para o Brasil? Muitas respostas e muitas perguntas. Não há uma fórmula, por isso as copycats “deram com cara na parede.”

Então, voltamos ao ponto inicial:

Por quê o Brasil ainda não Produziu uma empresa de Tecnologia Internacional de expressão? 

Temos diversos nomes que são referências em empreendedorismo na internet brasileira. Além de Buscapé, temos grandes exemplos de ecommerces (Dafiti, Netshoes, Hotel Urbano, Viajanet, Baby.com.br entre outros) e empresas de tecnologia (boo-box, Easy Taxi, etc) que são realmente diferentes na forma de vender e inovar. Mas algumas delas ainda têm o grande desafio de se tornar uma empresa lucrativa, que é o caso dos ecommerces. E em sua maioria, são ideias brasileiras com investimento estrangeiro. Talvez devêssemos olhar para nosso ecossistema, que infelizmente não incentiva de forma clara o empreendedorismo. A começar pelo governo e processos burocráticos de como obter recursos.

Esse último parágrafo constatamos claramente, que somos grandes produtores de bons empreendedores. Temos o principal elemento para a aceleração de novas Startups e ideias: o empreendedor. Mas será que o Governo faz sua parte? E as empresas privadas, elas sabem investir em Startups? E a mão de obra? Você empresário do ramo de tecnologia sabe a dificuldade de achar um desenvolvedor senior de Java, Ruby, Rails e etc no Brasil. E esse problema de mão de obra se estende a diversos setores.

Segundo pesquisa do instituto Startup Genome o Brasil é o 13º melhor ecossistema do mundo para Startups, representada nesse caso por São Paulo:

1º Vale do Silício

2º Tel Aviv

3º Los Angeles

4º Seatle

5º Nova York

6º Boston

7º Londres

8º Toronto

9º Vancouver

10º Chicago

11º Paris

12º Sydney

13º São Paulo

14º Moscou

15º Berlim

Para ilustrar melhor esse ranking, o Vale do Silício que criou o Startup America junto com outros pólos, usa investimento do governo e empresas como IBM e Intel para fomentar o crescimento de empresas embrionárias. Em 3 anos investiram em 10.000 empresas e o valor chega a US$3 bilhões. Exemplo disso é: o a maior empresa de pagamentos do mundo, é americana, a maior rede social é americana, a marca mais valiosa do mundo é americana e por aí vai. No Brasil o Startup BR, já investiu cerca de R$40 milhões em 200 empresas. Apesar de São Paulo ficar em 13º lugar, a capital paulista é referência em empreender. Notem que Berlim e Moscou estão atrás. O grande ponto é que São Paulo é apenas o maior pedaço do Brasil. Temos grandes ideias sendo lançadas no Rio de Janeiro, Campinas, Recife, Belo Horizonte, Curitiba, Teresina, Florianópolis e até em cidades dos interiores do país.

No Brasil, o que dificulta aos empreendedores no geral são as regras internas. Para começar temos as taxas de juros e para fechar com chave de ouro: os impostos. Crescer no país nem sempre é ter mais lucratividade, já que o governo na maioria dos casos, estrangula o faturamento das empresas. A corrupcão que é um crise iminente, não faz com que infraestrutura jogue a favor das empresas e sociedade.

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Impostos: aqui no Brasil, eles estrangulam.

 

Minha Opinião. 

Temos muito problemas internos, e talvez esses problemas podem responder a pergunta de Por quê ainda não temos uma empresa de Tecnologia Referência no Mundo. Em minha humilde opinião, estamos exportando mão de obra e não Inovação. Educação também é crítica. Em todas esferas, a educação afeta acontecimentos de inovação. Não temos escolas, tampouco universidades que possam criar um lastro sólido para novos empreendedores, mais preparados e melhores. Não vou cometer injustiça com instituições como Unicamp, Usp, Unesp, ITA e outras poucas que apesar dos problemas particulares são lugares que contribuem e muito para o empreendedorismo. Mas é pouco. E tem o problema gravíssimo de infraestrutura do país. Mal conseguimos obter no Brasil, qualidade de sinal em tecnologias como o 3G. Todos problemas de infraestrutura podem afetar direta e indiretamente a Inovação por aqui. O Trânsito por exemplo, é um dos maiores problemas das grandes cidades. E atrasa e muito os processos do Brasil. Todo nosso ecossistema é afetado por problemas internos.

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Escritório do Google, mais parece faculdade do que empresa.

E a culpa é sim dos empreendedores também. Aqui muitos ainda adotam a “política do Ganha-Ganha”, onde somente o lucro é importante. Ganhar sempre, é um erro. E não ser sustentável é um erro maior ainda. As empresas hoje precisam pensar que têm que contribuir com a sociedade, com a sustentabilidade e com os acontecimentos à sua volta. Visar somente o lucro, pode ser o primeiro caminho para não se obter bons resultados. Outra questão é o imediatismo. A maioria dos empresários que conheci, tinham na mente ficar rico rapidamente. Outro erro grave. E para terminar a cabeça do empresário de tecnologia brasileiro também tem que mudar. Os novos profissionais estão mudando. Com eles muda os horários, as rotinas e também os métodos. Empresas muito “travadas” cheias de protocolos e normas (*Transatlânticos Corporativos), provavelmente vão perder os profissionais mais talentosos. É preciso olhar para frente. Temos prêmios no Brasil que incentivam a premiação de melhores empresas para se trabalhar, mas é realmente necessário isso? E os prêmios de empresas mais Inovadoras do Brasil?

Esse são os tipos de pensamentos que devem virar conselhos de investidores anjos aos jovens empreendedores.

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Trânsito de São Paulo, um problema que afeta a inovação.

Daniel Isenberg professor da Babson College e um dos mais respeitados especialistas em empreendedorismo do mundo tem pontos de vista interessantes sobre o fomento às startups no Brasil e no mundo. Isenberg morou 17 anos em Israel onde teve contato com diversos meios de empreendedorismo, desde empresários até investidores. Ele cita por exemplo que os governos não devem fomentar o empreendedorismo, e sim facilitá-los. Ele cita por exemplo que no Brasil é um erro a manutenção do “Simples Nacional”, onde crescer significa pagar mais imposto. Isenberg cita que todos programas de fomento ao empreendedorismo, estão olhando para o lado errado da equação, estão “Fazendo Filhos” e não “Criando Famílias”.

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A decolada brasileira do The Economist, cadê?

A capa do The Economist de 2009, ainda no governo Lula, demostrava o Cristo Redentor decolando, tamanha era a expectativa sobre o Brasil no mundo. Trazendo para a realidade de hoje da tecnologia brasileira, temos esse potencial.

Se dependesse somente dos empreendedores, sim.

 

Fontes: Exame, CNET e IGBE

* Transatlânticos Corporativos – Empresas muito grandes que sofrem problemas como “Gigantismo”. Dificilmente conseguem mudar rapidamente sua cultura, forma de atuação e estratégia. Normalmente demoram décadas para alterar a rota.

Sobre o autor

Rodrigo Dantas
Fundador e CEO da Vindi, plataforma líder em recorrência e criador do maior evento de empresas SaaS e Assinaturas do país, o “Assinaturas Day”.

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